A DIFERENÇA BÁSICA ENTRE O QUERER E O MERECER

(Por T5)


“[…] Eu não falo mais nada a fundo com a minha irmã: o que crio, as coisas que pretendo, etc. Ela quer ler meu livro pronto (ou diz que quer ler), mas não lê nem os documentos que eu mando [com os capítulos]. Quem não faz parte do meu gerúndio não merece ter meu particípio. Quem não está presente no “fazendo” não merece ter o “feito”. É muito chato ter que lidar com gente que só quer colher o fruto sem participar da plantação da árvore.”

Se você se identificou com este testemunho, que na verdade é o trecho de um diário pessoal meu, sabe do que estou falando: sempre temos aquele parente, aquele amigo, aquele conhecido da web, que quando você está às vésperas de publicar (ou já publicou e tá divulgando o bagulho no Facebook/Insta) chega na intimidade e fala: “Dá um livro para mim?” No mundo dos desenhistas, isso seria o equivalente ao “mim desenha”. No mundo dos advogados, seria o “é só um conselho rapidinho”. E, no mundo dos autores… bem, é essa merda aí. A pessoa que te ignorou legal quando tu perguntou se ela te leria no Wattpad e mentiu dizendo que não tinha memória no celular para baixar o aplicativo, que fingiu que não viu quando você mandou uma mensagem inbox com o documento para facilitar a vida dela, que passou dias, meses, semestres e anos prometendo “leio quando estiver de férias / leio quando a faculdade acabar / leio quando não estiver cuidando das crianças / leio quando… (você conhece todas essas desculpas) agora chega e paga de fanzaça número 1 do seu trabalho quando tu lança. Quando você menciona Deus e o mundo nas dedicatórias e o nome dela não aparece, ela te pergunta por quê, ficando ofendidaça porque jura que te conhecia desde o começo e participou de todo o processo… só que não. O que fazer com uma pessoa dessas, irmão?

Eu acho que as relações familiares nos fazem confundir muito a noção de “essa pessoa aqui é minha irmã, mas ela participa do que eu faço?”. Automaticamente, nos infligimos uma dívida que tem por único motivo uma conexão sanguínea. A pessoa não tinha interesse nem empatia quando te ouvia falar dos seus projetos e personagens, e agora diz querer um trabalho que muito provavelmente você vai continuar perguntando “e aí, já leu?” e vai ouvir as mesmas respostas da época em que enviava apenas um documento do Word. No meu caso, eu teria que lidar com a frustração de pagar o preço de um volume e ainda por cima o valor de um frete internacional que não sairia por menos do que 130 bonoros (porque ela mora no Japão hoje). Valeria a pena? Não sei. Ela tem em sua posse um cartão de Natal de 2018 que não me enviou até porque “não tem tempo”. No mesmo período, enviei a ela cartas, desenhos e mangás, para ela matar as saudades do Brasil. Nesta semana, ela postou fotos de uma visita dela a um parente do marido. Tempo ela tem, só que esse tempo não é dedicado a mim.

Não acho que eu recuperaria a mesma conexão que eu e minha irmã tínhamos quando crianças ou durante a juventude se eu enviasse meu livro para ela ler. E ela acredita que eu ainda sou a mesma pessoa daquela época, que escrevia muita violência gratuita (sempre fazemos isso quando somos jovens). Diz “ter até medo” de me ler. Dez anos separam o último trabalho meu que ela leu do atual. Evoluí muito, mas ela não conferiu meu trabalho para apreciar isso. Tem coisa que eu leio que nem acredito ser obra minha. Mas isso não vem ao caso neste texto.

Eu me lembro de ter enviado meus trabalhos para algumas pessoas ao longo da vida:

- Manda quem pode, obedece quem ama, enviei a duas pessoas: uma colega de sala e uma prima que ficou sabendo que eu escrevia através de um status meu no Facebook e IMPLOROU para que eu mandasse o documento da obra para ela. Enviei para ambas e até hoje nada de retorno. Isso tem uns seis, sete anos já.
- About Seth teve seus quatro primeiros capítulos enviados para a minha irmã. Também os mandei a um amigo pessoal recentemente. Não obtive resposta de ambos.

Eu não tenho nada contra escrever para mim e conservar a obra em segredo. Mas me irrita e decepciona a pessoa pedir algo para ler e não dar satisfação. Não tem interesse no trabalho do amigo? Não finja ter. Eu tenho vários amigos que não compartilham comigo o gosto pessoal pela escrita/leitura, eles não deixam de ser meus amigos por isso. Muitas vezes, uma pessoa não me lê, mas me ouve desabafar sobre meus problemas e bloqueios, ou me faz relaxar depois de um dia duro, deixando o clima leve novamente para eu poder reunir a disposição necessária para o meu trabalho. Minha mãe não faz a menor ideia do que eu escrevo, mas trabalha nas atividades domésticas para que eu tenha o ócio necessário para desempenhar esse hobby da escrita. É verdade que ela me questiona e subestima muito, sempre perguntando se eu confio no meu talento, se o que eu escrevo está no nível de ser publicado, eu acho até que essas preocupações são necessárias para que eu não chegue ao ponto de ter meu nome associado a alguma vergonha literária. Quanto aos demais que mencionei aqui, acho que poderiam ser menos cínicos. Na hora do livro físico, todo mundo quer ser amiguinho do autor publicado ser citado nos agradecimentos, ganhar exemplar autografado, ser divulgado pelo amigo que lançou primeiro, mas o que ninguém pergunta é se é merecedor disso. Pessoal bem que poderia parar de querer os livros grátis e apoiar os escritores do seu convívio de forma mais substancial. Dessa maneira, nós de forma espontânea te presentearíamos com nosso trabalho, e não porque fomos constrangidos a isso.

Pic aleatória de um desenho de 2018*


Postar um comentário

0 Comentários