RESENHA DO LIVRO HOMO TEMPUS, DE F. E. JACOB

 



(Texto por T-5)


RESENHA DO LIVRO HOMO TEMPUS, DE F. E. JACOB



“A todos aqueles que se foram antes de chegarmos…

...e a todos os que virão depois de partirmos.”


    É com esta dedicatória que o autor inicia Homo Tempus, a saga de um bibliotecário comum que protagonizará uma odisseia extraordinária que conecta futuro e passado (isso mesmo, nesta ordem). Ele, que como bem diz na epígrafe de Theodore Dalrymple, é um desses jovens que tanto ignoram o passado como não têm o menor apreço em descobrir como suas ações ou falta delas impactarão no futuro, leva a vida de um jeito estoico, indiferente, em completa desobediência literária ao clichê de que todo trabalhador de bibliotecas deve ser, obrigatoriamente, um intelectual aficionado em livros. Por outro lado, é mencionado também que o rapaz, que se sustentava nesse último emprego há pouco mais de seis meses, havia durado ainda menos nos outros, o que talvez revele nele um germe do espírito inconformado e rebelde que ele demonstrará nas páginas seguintes. Habilidoso desenhista, ele também não monetiza seu talento. Ascender, lutar pela realização de sonhos, crivar seu nome na eternidade através de alguma obra literária ou artística, nada disso parece o ser propósito de Wallace, que, aparentemente, é uma dessas pessoas acomodadas que se conformaram em ver o tempo passar sem fazer nada a respeito. Da mesma forma, suas relações interpessoais não são profundas. Membro de uma geração mais afeita ao contato cibernético do que pessoal, tem dificuldade de interagir em off, isto é, longe do ambiente virtual. Também não parece ter o menor interesse em alterar isso.


    Porém, um experimento misterioso de consequências imprevisíveis acontece, e o rapaz, alienado como é, não faz a menor ideia de como será diretamente impactado por ele. Enquanto a mídia discutia se as perturbações no campo magnético da Terra tinham ou não relação com o chamado Colisor de Hádrons, Wallace se dirige do trabalho para casa como sempre faz, até que presencia algo extraordinário acontecer. O que, para ele, parecia ser fruto de um delírio ou uma queda de bicicleta comum era, na realidade, uma viagem no tempo.


    O autor F. E. Jacob divide seu livro em partes, e cada uma delas é iniciada por uma citação. Quando lemos o conteúdo dessas divisões é que percebemos o quanto elas fazem sentido dentro do contexto da obra. A Parte 1 é iniciada com a frase do escritor G. K. Cheterston: “Supercivilização e barbárie estão a menos de uma polegada de distância” (eu só irei aproveitar este trecho). Logo que chega à nova realidade, Wallace é apresentado a contradições bem inconvenientes: ele não está mais em seu mundo, as pessoas desse lugar parecem viver em um ambiente pós-apocalíptico, sua fisionomia e proporções corporais são bem diferentes das dele e o pior de tudo: eles parecem querer mantê-lo prisioneiro. Entre discussões diversas com seus captores e tentativas de fuga, o protagonista descobre que os parâmetros morais da nossa realidade são inexistentes ali. E que nós, independente de nosso verniz de civilização, também somos capazes de adequar nosso temperamento às possibilidades que a realidade em volta nos apresenta, uma vez que, enquanto lemos essa parte do livro, apresentamos mentalmente soluções para cada problemática que surge, e descobrimos que o personagem as segue à risca.


    Neste ponto, faço um adendo: não precisamos ir de encontro ao passado ou futuro para percebermos o quanto esse fator – a realidade – pode ser determinante no comportamento do indivíduo. Nós, que julgamos culturalmente o homem-bomba, o casamento infantil, o aviãozinho do tráfico que mata friamente os desafetos de seu líder, a gravidez na adolescência, a drogadição dos membros da Cracolândia, a imigração; nós que também nos colocamos moralmente acima do homofóbico, do racista, da pessoa que reproduz machismo; nós, que cometemos anacronismos julgando os católicos da Idade Média, os nazistas do século XX, o feitor de escravos que muitas vezes agrediu seus semelhantes nesses quase quatrocentos anos de escravidão que nossa história registrou; acreditando-nos dignos e esclarecidos dizemos de cara limpa as máximas hoje permitidas e aplaudidas: “Fogo nos racistas”, “Eu me mataria a ter que bater no meu semelhante”, “Prefiro animais a seres humanos”, “O aborto é questão de saúde pública”. Quanto de barbárie existe em cada sentença dessa? Quantas civilizações, do passado ou do futuro, não achariam esses posicionamentos abomináveis, heréticos? Quantas pessoas seriam condenadas à morte por proferi-los? Quanto de absurdo futurista virá e quanto o futuro atropelará a convicção de tolerância daqueles que hoje se afirmam progressistas? Sim, porque toda pessoa tem um limite: vender crianças, por exemplo, é hoje uma prática que acontece na clandestinidade, mas pode vir, em um futuro próximo, a ser um negócio corrente e legalizado. Capturar pessoas para roubar-lhes os órgãos, idem. Se hoje é comum um funcionário da polícia americana puxar uma alavanca para baixo ou aplicar uma injeção letal na veia de um condenado à morte, amanhã isso pode ser visto com o mesmo estado de choque com que hoje encaramos a guilhotina ou a forca. E, no momento em que alguém, por coerência ao seu tempo ou qualquer outro motivo, disser “Ei, isto é proibido! Ei, isto é errado! Ei, as coisas deveriam continuar como eram!”, então essa pessoa, progressista ou não, se tornará aquilo que mais teme: um conservador, um ser de mentalidade retrógrada atropelado pelos novos tempos.


    O anacronismo moral é o erro maior de quem hoje se acredita nobre, justo e irrepreensível.


    O experimento de Marina Abramovic em 1975 serviu para mostrar que, mesmo na era moderna, em condições favoráveis, pessoas comuns, que se julgam socialmente adequadas, podem involuir da normalidade à barbárie num estalar de dedos. A artista sérvia, que se submeteu a seis horas de vulnerabilidade absoluta em sua performance chamada Ritmo 0, teve suas roupas arrancadas, foi ferida com giletes de barbear, espinhos de roseiras, sofreu agressão sexual e teve uma arma carregada apontada para sua cabeça. Tudo isto porque, ao início da performance, disse que seria um objeto e, a partir dali, se responsabilizaria por qualquer coisa que acontecesse. O fenômeno a que ela se expôs – a desumanização – é uma das formas mais competentes de fazer vir à tona os impulsos violentos de um indivíduo contra outro. Nazistas foram levados a acreditar que judeus faziam rituais sacrificando crianças; ases de guerra matavam pessoas que nem conheciam e às quais originalmente nem odiavam apenas materializando em sua mente a figura abstrata de um “inimigo”; kamikazes e homens-bomba deram e dão até hoje a própria vida em ataques voluntários, convencidos de que sua nação lhes seria ou será grata, ou de que o outro mundo lhes será próspero e ameno; socialistas insistem em assistir seu povo minguar na miséria, contanto que não cedam às exigências imperialistas; neste próprio tempo de pandemia confraternizamos e nos reunimos alegre e impunemente enquanto não conhecemos nenhuma história de familiar morto; os exemplos são diversos. Por ideologia ou indiferença, por falta de conexão direta com aqueles a quem vitimizamos, ignoramos as motivações dos vilões sociais de nosso tempo – o bordão “Bandido bom é bandido morto” é a maior prova disso. Mas, o que isso tudo tem a ver com Homo Tempus?

    Fisicamente diferentes dele, os neandertais têm qualquer traço de humanidade descartado por Wallace. Naquele ambiente, ele também se deu conta de que a diplomacia como a conhecemos não seria a solução para as suas querenças. Ferir alguém naquela realidade não o faria responder criminalmente por nada em sua própria era, então seria mais ou menos como matar um personagem de videogame, algo puramente virtual. Logo, a forma como o protagonista observa seus captores é essa: eles são o obstáculo entre ele e seu objetivo de regressar ao próprio mundo. É verdade que no caminho ele se depara também com alguns aliados, mas todos representam nada mais do que isso: a ponte para o seu objetivo maior.

    Um fato curioso no fim desse arco é que, justamente os livros que o rapaz tanto ignorava em seu trabalho, e seu próprio trabalho que ele talvez considerasse enfadonho, o salvaram. Mesmo que a violência parecesse ser a única forma de fazer com que os seres daquele mundo se obedecessem, Wallace Vidal teve que encontrar nos livros a resposta ansiada para dar o troco nos seus inimigos. Ou será que não seriam seus inimigos? Wallace estaria equivocado sobre tudo o que pensou a respeito dos seus novos desafetos?


    Neste ponto ele, ao fugir dos seus perseguidores, se depara com um lugar surpreendentemente provido de alta tecnologia e, ao conversar com seus ocupantes, obtém respostas vagas sobre o que deve ter acontecido para aquele tempo estar do jeito que está, entendendo apenas que a dependência das pessoas às comodidades tecnológicas levou aquela civilização ao colapso. Contando assim dessa forma, não dava ainda para ele ter uma dimensão do que Nolan, seu anfitrião, estava falando. Ainda nesse lugar misterioso, Vidal recebe um dispositivo para decodificar idiomas e se teletransportar no tempo. Sua missão agora é evitar a todo custo que o mundo de 2018 tal como ele conhece se transforme naquele futuro trágico de 2095. E, com isto, chegamos à segunda parte da história: o arco de redenção do personagem.


    Por uma razão que seria spoiler dizer, Wallace descobre que regrediu à era dos neandertais. F. E. Jacob constrói uma interessante teia de costumes e hábitos, demonstrando poderosa fluência de conhecimentos entre todos os períodos que aborda: das possíveis inovações tecnológicas futuristas à dieta dos neandertais no passado, seu muito provável contato com os homo sapiens, essa estranha coexistência que os registros pesquisados pelo autor garantem ter acontecido, o nomadismo, seu contato com a natureza, tudo isto é trazido para o universo de Homo Tempus de maneira fantástica e muito sensível.


    A segunda parte com os neandertais chama a atenção pelo impensável desenvolvimento de uma narrativa interativa quase que completamente sem diálogos. A humanidade e sentimentos nobres atribuídos a estes seres do passado impele o leitor a imaginar como seria uma sociedade primitiva completamente pautada na divisão com o outro, sem hierarquias, nessa busca incessante e atemporal pelo bem estar coletivo. Poderia ser uma matilha, uma revoada ou um cardume, teríamos o mesmo efeito, afinal somos todos animais. Mas o diferencial em Homo Tempus é como o autor conseguiu trabalhar o conceito de civilização antes de uma linguagem inteligível – mesmo nos filmes onde animais são protagonistas, eles recebem o mesmo código comunicador que nós, isto é, não se expressam como bichos. Os neandertais de Jacob também possuem uma cultura própria e códigos de ética bem definidos: a prioridade à segurança de crianças e idosos, a proteção às mulheres, a exclusão do preguiçoso, a divisão dos alimentos considerando as limitações individuais de cada um no grupo, a alegria coletiva pelos êxitos, a valorização do corajoso, o trabalho grupal em prol do doente, enfim, os conceitos basilares de nossa própria sociedade já estão todos ali, cabendo ao leitor saber identificá-los. Sua hipótese de civilidade com os sapiens, no entanto, só é respeitável devido aos estudos que Jacob mesmo declarou ter feito sobre as possíveis interações entre neanderthalensis e sapiens. Nós, homem moderno, ao nos depararmos com seres de outro planeta, com a fisionomia levemente alterada pela geografia ou pela evolução, talvez não fôssemos tão receptivos quanto os neandertais de seu livro. O fato de nós termos resistido e os neandertais não seria afinal uma prova de que, belicosos e territorialistas que somos, conseguimos extinguir a outra espécie? Ou seria o contrário: tamanha foi a interação entre os dois grupos que as diferenças desses dois irmãos evolutivos já não se faz mais notar? Especulação ou não, o que especialistas dizem é que europeus possuem uma porcentagem irrisória de DNA neandertal, isso segundo as fontes apresentadas pelo próprio autor.


    Quanto ao episódio onde Wallace se perdoa pelos ataques aos neandertais da primeira parte, há que se observar o seguinte: ele deu aos neandertais de 30 mil anos atrás conforme recebeu; igualmente, reagiu aos neandertais futuristas idem ao que achou que eles mereciam. Logo, a conclusão é a de que ele não foi exatamente um herói, apesar dos seus rompantes de coragem. Ou talvez ser heroi tenha algo a ver com isso, com suas dualidades e contradições ser capaz de operar em benefício de terceiros.


(…)


    O ano é 2048, e Wallace, após duradoura interação com os neandertais, tem seu dispositivo acionado e acorda nessa nova realidade. Ele é apresentado a Marcel e Hellen, uma dupla de primos aventureiros que estavam andando de carro pela cidade até quase atropelá-lo. Marcel imediatamente se interessa por Wallace após ouvir dele a palavra “neandertal” e arrasta o viajante do tempo com eles. Conversando com o primo de Hellen, o protagonista então percebe que está situado em um período de transição que não é nem o seu 2018 habitual nem o futuro apocalíptico que Nolan disse ter sido destruído pela dependência dos humanos à tecnologia.


    Ele se surpreende em conhecer o lado espinhoso daquele lugar, suas tecnologias risíveis e até mesmo os motivos por que uma pessoa pode se tornar uma criminosa. Aos poucos, o que Nolan disse vai tomando forma e fazendo sentido. Por mais que seus novos amigos considerem usar as coisas do jeito antigo, são marginalizados por isso. As leis daquele lugar os obrigam a andar com carros conectados a um sistema de comando para evitar acidentes, comer comida processada e prestar contas de tudo o que fazem a um serviço de cadastro geral, semelhante a uma rede social única. Por falar nelas, as redes sociais são o que determinam os indivíduos como socialmente aceitos ou banidos. Não ter acesso a elas significa que você é um excluído social que merece ser capturado e penalizado.


    Os direitos de propriedade à vida já não mais existem, e o mundo lúdico onde todos vivem se divertindo sem ter o menor contato com o sofrimento se assemelha muito ao universo descrito em Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), ou à Zalem, cidade fictícia de Battle Angel Alita (Gunnm, no original de Yukito Kishiro). Leis de igualdade com critérios absurdos transformaram a vida de todos para pior, pois, no mundo exposto por F. E. Jacob, é evidente que nessa busca pelo conforto permanente, as pessoas perderam muito de suas liberdades individuais. Há inclusive a menção a algo que já existe em nosso mundo de agora: nessa realidade, bebês deficientes são compulsoriamente abortados, pois o governo atendeu os anseios daqueles que consideravam trabalhoso demais cuidar de uma criança nessas condições. Ainda que os índices de aborto de crianças com síndrome de Down em países europeus não tenham atingido os 100%, conforme notícia que se disseminou pela internet em 2017 tratando principalmente da Islândia, os números ainda são aterradoramente elevados. As justificativas para isso são “não ver o aborto como assassinato” e “dar fim a uma possível vida que poderia ter tido uma complicação enorme”, numa intenção de “prevenir o sofrimento para a criança e para a família” (Copyright © 2021, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados).


    A forma utilitarista de lidar com os deficientes físicos contrasta em absoluto com a forma paternalista com que tratam aqueles que são ineptos simplesmente por não aguentarem o sofrimento laboral, ou responsabilidades de qualquer ordem. Nesse ponto, o autor destaca algo que vemos hoje nas redes sociais: o desejo irracional de aprovação, a abstração de qualquer sentimento autocrítico a ponto de acreditar nas mentiras agradáveis de uma cabine de condescendência chamada Espaço Seguro. Em nosso 2021, o mesmo lugar poderia se chamar Twitter, quem sabe Facebook.


    As denúncias nas redes sociais e a forma que elas impactam na carreira e na vida pessoal do indivíduo denunciado também apresentam similaridade com o nosso cotidiano, pois é impossível não associar este trecho do livro à hoje chamada “cultura do cancelamento”. Num cenário onde o indivíduo dependa completamente de apetrechos tecnológicos para se locomover ou exercer qualquer atividade do dia-a-dia, a autoridade dessas denúncias passa do virtual ao concreto mesmo, ao palpável.


    A obra de Audous Huxley conversa novamente com Homo Tempus até no seguinte ponto: as conexões maritais são todas determinadas pelo supersistema, o que lembra dos relacionamentos líquidos impostos em Admirável Mundo Novo: se uma pessoa insistisse em conservar por um longo período o mesmo parceiro, isso se tornaria uma ameaça à sua capacidade produtiva, ou sua obediência enquanto indivíduo sexualmente coletivizado. Em Homo Tempus, os casais são selecionados automaticamente e obrigados a ficarem juntos, o amor espontâneo e incondicional é um ato revolucionário e, portanto, criminoso.

    Um dos pontos altos deste arco que considero o mais interessante de todos é a reunião da chamada Resistência, um grupo de excluídos do sistema, pessoas credenciadas que ainda não tiveram a chance de anunciar sua rebelião e outras mentes questionadoras que, mesmo diante de toda a comodidade oferecida, se deram conta de que existe algo bem errado com seu estilo de vida. E, nesse diálogo coletivo, surge novamente a palavra que eu citei antes, na seguinte colocação:


    – “[…] A vida foi sistematizada e desumanizada em nome do bem-estar social”.


    O excesso de leis sem sentido tornou aquela realidade “irrespirável de tantos direitos” (p.210). O conflito por privilégios tornou as pessoas fracas, letárgicas e sem disposição para lutar seguramente em prol de seus objetivos. O desejo de satisfazer necessidades urgentes e restritas a nichos específicos quebrantou o funcionamento de toda a sociedade enquanto entidade coletiva. Não é de se surpreender que o final de algo assim tenha sido o colapso.


    Sendo um viajante do tempo sem nenhuma credencial ou registro, Wallace logo se torna uma figura chamativa naquele meio, e a chamada Polícia Social agora está em sua cola. O restante surpreendente do livro pode ser comparado ao brilhante Tenet, filme lançado em 2020 por Christopher Nolan. A simples comparação entre os dois pode ser entendida como um spoiler, então não farei aqui a descrição do seu enredo, ficando apenas a comparação, e a sugestão, para quem ainda não o conhece. O final, que deixou um gostinho de sequência, encerra com coesão o livro, que não faria má figura se fosse uma obra de volume único, o que já ouvi dizer por alto que não é. Mal posso esperar pelo próximo!

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